Professora Solange Magalhães

Friday, November 17, 2006

A EPISTEMOLOGIA DE MATURANA

A EPISTEMOLOGIA DE MATURANA

The epistemology of Maturana
Marco Antonio Moreira1

Resumo: Diferentemente dos epistemólogos mais conhecidos no Ensino de Ciências, geralmente
oriundos das ciências físicas e predominantemente racionalistas, Maturana vem das ciências biológicas
e procura explicar o conhecer explicando o conhecedor e tomando como ponto de partida a experiência
do observador e o observar. Esse observador não pode distinguir, na experiência, entre ilusão e percepção,
mas pode gerar explicações da experiência que são reformulações da experiência. As explicações
científicas, por exemplo, são reformulações da experiência aceitas pela comunidade científica por satisfazerem
um critério de validação estabelecido por ela mesma. Este texto procura detalhar essas idéias.
Unitermos: Ciência, explicações científicas, biologia do conhecer, epistemologia.
Abstract: Unlike some epistemologists well known in science education, usually coming from the physical
sciences and mostly rationalists, Maturana comes from the biological sciences and tries to explain knowing
by explaining the knower and taking as starting point the observer's experience and the observation. This
knower cannot distinguish, in his/her experience, between illusion and perception, but he/she can generate
explanations of the experience, which are reformulations of the experience. Scientific explanations, for instance,
are reformulations of experience accepted by the scientific community because they satisfy validation criteria
established by the community itself. This paper attempts to clarify these ideas.
Keywords: Science, scientific explanations, biology of knowing, epistemology.
Objetivo
A finalidade deste texto, de caráter monográfico, é a de descrever idéias centrais da epistemologia
de Maturana. Para aprofundamento nessa epistemologia é necessário recorrer à bibliografia
indicada ao final, particularmente à obra Cognição, Ciência e Vida Cotidiana (MATURANA, 2001).
Introdução
Humberto Maturana, biólogo chileno nascido em 1928, fez doutorado em Biologia em
Harvard, trabalhou em neurofisiologia no M.I.T. e é professor da Universidade do Chile desde
1960. A partir da noção de sistema, no âmbito da Biologia, Maturana se perguntou: Que classe de
sistema é um ser vivo? Essa pergunta guiou suas reflexões teóricas e epistemológicas e o levou, juntamente
com Francisco Varela, outro chileno com a mesma formação, ao conceito de autopoiese.
Teoria da autopoiese, ou Biologia do Conhecer, é o nome dado ao conjunto das idéias
de Maturana. Autopoiese é a explicação do vivo:
É uma explicação do que é o viver e, ao mesmo tempo, uma explicação da fenomenologia observada
no constante vir-a-ser dos seres vivos no domínio de sua existência. Enquanto uma reflexão sobre o
conhecer, sobre o conhecimento, é uma epistemologia. Enquanto uma reflexão sobre nossa experiência
com os outros na linguagem, é também uma reflexão sobre as relações humanas em geral, e sobre
a linguagem e a cognição em particular. (MAGRO & PAREDES, in MATURANA, 2001, p. 13).
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1 Instituto de Física da UFRGS. Caixa Postal 150519, CEP 1501-970, Porto Alegre, RS.
http://www.if.ufrgs.br/~moreira. (e-mail: moreira@if.ufrgs.br)
Além da Biologia, Maturana interessou-se por Filosofia, Antropologia, Anatomia,
Genética e Cardiologia (estudou medicina durante quatro anos). Quer dizer, preparou-se no
âmbito biológico de maneira ampla e, como conseqüência, seu interesse fundamental tem permanecido
centrado no humano. Em particular, seus estudos sobre o sistema nervoso e sobre
os fenômenos da percepção o levaram à conclusão de que não é o externo o que determina a
experiência; o sistema nervoso funciona com correlações internas (MATURANA, 2001, p. 24).
Conseqüentemente, rejeita o "modo tradicional de abordar o ato cognitivo" que, segundo ele,
tem sempre a ver com a indicação de algo externo ao sujeito.
Ao invés de centrar-se em características materiais dos seres vivos ou de seus componentes,
Maturana (e Varela) fixa(m) a atenção em sua organização e estrutura. A organização de
alguma coisa é o conjunto de relações que devem existir ou que têm que ser satisfeitas para que
essa coisa exista; refere-se às relações que definem a identidade de um sistema. A estrutura refere-
se aos componentes, mais as relações entre eles, que constituem um sistema particular. Na
organização não há referência a componentes: eles têm que satisfazer as relações da organização.
A estrutura tem que satisfazer as relações da organização, mas esta não faz referência aos
componentes. A organização é necessariamente uma invariante. Pode haver mudanças estruturais
sem perda de organização. Qualquer mudança estrutural com perda de organização é uma
desintegração. (op. cit., p. 77-78). Portanto, há mudanças estruturais com conservação ou sem
conservação de organização: a conservação ou não conservação é definida pelo critério de validação
do observador.
No caso dos seres vivos, há, então, uma organização que os define como classe.
Maturana e Varela (segundo ROSAS & SEBASTIÁN, 2001, p. 59) propõem que o traço
característico dos seres vivos é que, em sentido material, produzem a si mesmos de maneira
constante e a isso chamam de organização autopoiética. Para eles, os seres vivos são máquinas
autopoiéticas, ou seja, máquinas que continuamente especificam e produzem sua própria organização
por meio da produção de seus próprios componentes, sob condições de contínua perturbação
e compensação dessas perturbações (produção de componentes).
A organização característica dos seres vivos é, então, a autopoiese, mas esta tem como
produto a organização da máquina-ser-vivo em questão, que produz sua própria organização.
Trata-se, portanto, de uma definição recursiva da organização dos seres vivos: não se trata simplesmente
de uma estrutura que explica uma fenomenologia própria, mas sim de uma estrutura
que determina uma estrutura que determina uma estrutura que determina uma... que
explica uma fenomenologia própria. (op. cit., p. 61). Esta definição situa-se completamente na
rede de relações entre relações (entre relações...) que constitui a recursividade.
As máquinas autopoiéticas são autônomas (subordinam todas suas mudanças à conservação
de sua própria organização), têm individualidade (mantendo invariante sua organização,
conservam sua identidade) e não têm entradas nem saídas (mas podem ser perturbadas
por fatos externos e experimentar mudanças internas que compensam essas perturbações).
(MATURANA & VARELA, 1970/1994, apud ROSAS & SEBASTIÁN, 2001, p. 63).
A célula é o exemplo paradigmático concreto de unidade autopoiética: seu metabolismo
consiste em uma rede de interações que interconecta seus componentes moleculares e
produz moléculas que formam parte da própria célula. As moléculas produzidas pela célula são
produtos da dinâmica celular e ao mesmo tempo insumos para seu próprio funcionamento.
O dinamismo próprio do processo de autopoiese implica uma permanente renovação
dos componentes moleculares, ou seja, uma permanente mudança estrutural. A história
das mudanças estruturais de uma unidade autopoiética particular é o que Maturana chama de
ontogenia (op. cit., p. 64).
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Para Maturana, existe uma congruência estrutural mínima entre o ser vivo e o meio,
da qual depende a existência do primeiro. Nessa congruência, uma perturbação do meio não
contém em si mesma uma especificação de seus efeitos sobre o ser vivo, é este em sua estrutura
que determina sua própria mudança frente a tal perturbação. Esta propriedade das unidades
autopoiéticas chama-se determinismo estrutural (MATURANA & VARELA, 1984, apud
ROSAS & SEBASTIÁN, 2001, p. 65).
O ser vivo é, assim, uma máquina autopoiética determinada estruturalmente. A
estrutura de cada ser vivo especifica quatro domínios (ibid.):
• Domínio de mudanças de estado, i. e., mudanças estruturais sem mudar a organização,
mantendo, então, a identidade de classe.
• Domínio de mudanças destrutivas, i. e., mudanças desintegradoras, perdendo a
organização desaparecendo como unidade de uma certa classe.
• Domínio de interações perturbadoras, ou seja, interações que geram mudanças de
estado.
• Domínio de interações destrutivas, i. e., aquelas que resultam em mudanças destrutivas.
O ser vivo é, então, um sistema dinâmico (uma máquina determinada estruturalmente)
e, como tal, sua estrutura está constantemente mudando, o que, por sua vez, implica
constante variação nesses domínios estruturais.
O acoplamento estrutural entre duas ou mais unidades autopoiéticas de primeira
ordem, mantendo a organização autopoiética, resulta em uma unidade autopoiética de segunda
ordem e assim por diante. Para Maturana e Varela, um sistema autopoiético que implica a
autopoiese das unidades autopoiéticas que o geraram, é um sistema atuopoiético de ordem superior
(apud ROSAS & SEBASTIÁN, 2001, p. 68).
Embora o objetivo deste texto seja o de descrever a epistemologia de Maturana, as
referências feitas até aqui a aspectos da Biologia do Conhecer (teoria da autopoiese) são necessárias
porque Maturana entende que para explicar o fenômeno do conhecer é necessário explicar
aquele ser no qual se materializa esse fenômeno, ou seja, é necessário explicar o conhecedor
que nesse caso é o ser humano (op. cit., p. 75). Mas para explicá-lo é necessário definir um
ponto de partida e este ponto é a experiência do observador.
Ilusão e percepção
Maturana chama atenção para o fato de que, na experiência, a ilusão é indistinguível
da percepção. Na vida cotidiana e na vida social, enfim, na experiência humana, não podemos
distinguir entre a ilusão e o que chamamos cotidianamente de percepção (op. cit., p. 26).
Por exemplo, quando "sentimos" que nosso trem está partindo, mas na verdade estamos parados
e o trem no trilho ao lado é que está em movimento.
Conseqüentemente, não podemos distinguir, na experiência, entre verdade e erro: o
erro é um comentário a posteriori sobre uma experiência que se vive como válida. Se não foi
vivida como válida, era uma mentira. (MATURANA, 2001, p. 27).
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Explicações
Como já foi dito, para explicar o conhecer Maturana diz que é necessário explicar o
conhecedor, que é o ser humano, e o caracteriza como uma máquina autopoiética, uma máquina
que funciona com correlações internas produzindo sua própria organização através da produção
de seus próprios componentes.
Toma, então, como ponto de partida o observador observando, e o observar (ibid).
Esse observador é qualquer um de nós. Quer dizer, a tarefa a qual se propõe é a de explicar o
observador e o observar. Mas ele chama atenção que o explicar é uma operação distinta da experiência
que se quer explicar. Ou seja, uma coisa é a experiência e outra é a explicação da experiência. Maturana
dá o seguinte exemplo (op. cit., p. 28): você está dirigindo e, de repente, um carro que parece
ter surgido do nada lhe ultrapassa; seu acompanhante se surpreende e você procura justificar
um pouco a surpresa dizendo "certamente ele vinha muito rápido, ou estava no ponto cego do
retrovisor". Mas suas palavras são uma explicação da experiência. O fato é que, na experiência,
o automóvel surgiu do nada. Dizer que estava no ponto cego ou que vinha muito rápido é uma
explicação da experiência.
O explicar é sempre uma reformulação da experiência que se explica. As explicações são sempre
reformulações da experiência, mas nem toda reformulação da experiência é uma explicação. Uma
explicação é uma reformulação da experiência aceita por um observador (op. cit., p. 29). O explicar e
a explicação têm a ver com aquele que aceita a explicação. As explicações são reformulações da experiência
aceitas por um observador (ibid.). No caso do ponto cego do retrovisor, essa não seria uma explicação
para o aparecimento súbito do carro se não fosse aceita pelo acompanhante.
Por outro lado, a explicação se dá na linguagem. O discurso que explica algo dá-se
na linguagem. Para Maturana, os seres humanos existem na linguagem. É esta nossa condição
inicial (op. cit., p. 28): somos observadores no observar, no suceder do viver cotidiano na linguagem,
na experiência na linguagem. Experiências que não estão na linguagem, não são. Não há
modo de fazer referência a elas, nem sequer fazer referência ao fato de tê-las tido.
O explicar se dá, então, na linguagem, mas sua validade não depende do explicador
e sim de quem aceita a explicação. Assim, há tantos explicares diferentes quanto modos de aceitar
reformulações da experiência (op. cit., p. 30). Há tantos explicares, tantos modos de explicar,
como modos de aceitar as explicações que são reformulações da experiência. E isso é absolutamente
cotidiano (ibid.).
Segundo Maturana, a ciência, por exemplo, se define por um modo particular de
explicar. Para ele, a ciência não tem a ver com a predição, com o futuro, com fazer coisas, mas
sim com o explicar. Os cientistas são pessoas que têm prazer em explicar. O que define o cientista
, em sua ação como cientista, é o modo de explicar e o critério de aceitação de explicações
que usa (ibid.). Assim sendo, não tem sentido separar a ciência da vida cotidiana. Para
Maturana, a ciência é uma glorificação da vida cotidiana, na qual os cientistas são pessoas que
têm a paixão de explicar e que estão, cuidadosamente, sendo impecáveis em explicar somente
de uma maneira, usando um só critério de validação de suas explicações... (op. cit., p. 31).
Dois modos de aceitar explicações (reformulações da experiência)
Para Maturana, há dois modos fundamentais de aceitar reformulações da experiência
(op. cit., p. 32 e 33):
No primeiro deles, o observador comporta-se como possuidor de certas habilidades
cognitivas como se elas fossem constitutivas dele. Assume-se o observador e o observar como
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condições iniciais constitutivas. Conseqüentemente, a pessoa opera como se os elementos que
usa no observar, no explicar, no escutar, existissem independentes dela mesma. Seres, objetos,
idéias, diferentes modos de aceitar, existem independentemente do que a pessoa faz como
observador. A existência é independente do observador. Este caminho explicativo é o que
Maturana (p. 32) chama de caminho da objetividade. Objetividade a seco, ou objetividade sem
parênteses, como diz ele. Nesse caminho, assume-se, explícita ou implicitamente, que é possível
distinguir entre ilusão e percepção porque se admite referência a algo independente do
observador. Percebe-se, vê-se, detecta-se com instrumentos; a razão permite dizer que isto é
assim independentemente do observador.
No segundo caminho, aceita-se a pergunta pelo observador, assume-se a biologia do
conhecer e, nesse caso, tal independência não existe. Assume-se o fato de que o observador não
pode distinguir entre ilusão e percepção. O fenômeno do conhecer tem que ser explicado sem
a suposição de que é possível distinguir entre ilusão e percepção. O que está disponível para
explicar o conhecer é o que o observador faz no observar, i. e., o que ele faz como observador.
A existência depende, então, do observador e a isso Maturana (p. 34) chama de objetividade
entre parênteses. Como ser humano, como ser vivo, o observador não pode distinguir entre ilusão
e percepção, logo, qualquer afirmação cognitiva sua é válida no contexto das coerências que
a constituem como válida.
Realidade
No caminho explicativo da objetividade sem parênteses, há uma realidade independente
do observador, à qual ele tem um acesso privilegiado que lhe serve para elaborar sua
explicação e configurar afirmações cognitivas como petições de obediência (p. 36), ou seja "é
assim", "é independente de mim" ou "de ti", portanto, deve ser aceita.
Porém, no outro caminho, o da objetividade entre parênteses, uma afirmação cognitiva
é válida apenas no contexto das coerências que a constituem como válida. O observador
não pode pretender um acesso privilegiado no explicar pois, como ser humano, como ser vivo, não
pode distinguir entre ilusão e percepção. (ibid.) Nesse caminho há muitas realidades. A realidade
no caminho da objetividade entre parênteses é uma proposição explicativa. Ou seja, é
sempre um argumento explicativo. Então, há tantas realidades – todas diferentes, mas igualmente
legítimas – quantos domínios de coerências operacionais explicativas, quantos modos de reformular
a experiência, quantos domínios cognitivos pudermos trazer à mão (p. 38). Se há discordância
entre o explicador e outra pessoa é porque essa outra pessoa está em um domínio de realidade
diferente daquele do observador, porém igualmente legítimo. Isso significa que as distintas realidades
que aparecem nesse caminho não são visões distintas da mesma realidade. Não! Há
diferentes realidades, todas legítimas, o que para Maturana (p. 37), não é o mesmo que dizer
que a realidade não existe.
No caminho explicativo de objetividade sem parênteses o explicador não é responsável
pela validade do que diz porque a realidade é independente dele. Portanto, a negação do
outro é responsabilidade desse outro. O outro nega a si mesmo (p. 38). Porém, no caminho
explicativo da objetividade entre parênteses o outro pode estar em um domínio de realidade
diferente daquele do explicador que é igualmente válido, ainda que não lhe agrade. O outro
pode, então, ser negado não porque esteja equivocado mas porque está em um domínio de realidade
que não agrada ao primeiro. Pode também haver aceitação e respeito ao domínio de realidade do
outro. Respeito, não tolerância, porque esta implica negação do outro enquanto o primeiro
implica em se fazer responsável pelas emoções frente ao outro, sem negá-lo (p. 39).
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Emoções
Emoções são disposições corporais dinâmicas que especificam os domínios de ações
nos quais os animais, em geral, e os seres humanos, em particular, operam em um dado instante.
(p. 129). Maturana chama de ações tudo o que fazemos em qualquer domínio operacional que
geramos em nosso discurso, por mais abstrato que ele possa parecer. Assim, pensar é agir no domínio
do pensar, refletir é agir no domínio do refletir, falar é agir no domínio do falar, e assim por diante,
e explicar cientificamente é agir no domínio do explicar científico (p. 128).
Na vida cotidiana, nos movemos de um caminho explicativo para outro em uma
dinâmica de emoções. Muitas vezes aceitamos e respeitamos o outro (estamos no caminho
explicativo da objetividade entre parênteses), mas freqüentemente queremos que o outro faça
o que queremos, ou que aceite o que explicamos e, então, recorremos à razão, nos colocando
no caminho da objetividade sem parênteses. Argumentamos que o outro tem que fazer o que
queremos ou estar de acordo com o que dizemos porque é "racional e objetivo" (p. 39).
Os cientistas, por outro lado, afirmam que suas emoções não participam na geração
das explicações científicas porque o critério de validação dessas explicações especifica, de uma
forma independente de seu emocionar, quais as operações que devem efetuar como observadores-
padrão para gerar tais explicações, e porque aprenderam a serem cuidadosos para não
deixar suas preferências e desejos distorcerem-se e, com isso, invalidarem sua aplicação do critério
de validação das explicações científicas (p. 145). Afirmam também que aprendem a reconhecer
que quando isso acontece cometem um erro grave.
Mas para Maturana as emoções especificam a todo momento o domínio de ações no
qual os cientistas operam ao gerarem suas perguntas. Quer dizer, as emoções não entram na
validação das explicações científicas, mas o que é explicado surge através do seu emocionar
explicando o que querem explicar, e o explicam cientificamente porque gostam de explicar
dessa maneira. (p. 147)
Então, a ciência, como um domínio cognitivo, existe e se desenvolve como tal sempre expressando
os interesses, desejos, ambições, aspirações e fantasias dos cientistas, apesar de suas alegações de objetividade
e independência emocional (ibid.)
Os cientistas, portanto, praticam a ciência como uma maneira de viver sob uma das
numerosas emoções que constituem o ser humano em seu viver como ser humano emocional
normal, ou seja, sob a paixão, emoção, desejo do explicar. (p. 150).
A objetividade e a universalidade da ciência são, para Maturana, afirmações morais. A
afirmação de objetividade na prática da ciência é uma afirmação moral porque significa o comprometimento
do observador-padrão em não deixar seus desejos ou preferências distorcerem ou
interferirem na sua aplicação do critério de validação das explicações científicas. Analogamente,
a alegação de universalidade da ciência é uma alegação moral porque uma vez que a ciência, como
domínio cognitivo, acontece na práxis de viver do observador-padrão como ser humano, todo ser
humano pode, em princípio, operar como observador-padrão, isto é, aplicar, objetivamente, o
critério de validação das explicações científicas, se assim o desejar (p. 148). Ou seja, a universalidade
da ciência não está em sua referência a um universo, mas está na configuração de uma
comunidade humana que aceita o critério explicativo da ciência (p. 60).
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Ciência
O cientista faz ciência como observador, explicando o que observa. Como obsevador
é ser humano e este já se encontra na situação de observador observando quando começa
a observar seu observar na sua tentativa de descrever e explicar o que quer explicar. Quer dizer,
ele já se encontra na linguagem, fazendo distinções na linguagem quando começa a refletir na
linguagem sobre o que faz para explicar o que quer explicar. Isso é cotidiano. O cientista já está
na experiência de observar quando começa a observar o que quer observar para explicar o que
quer explicar.
Mas, se o cientista faz o que faz o observador cotidiano que vive no observar, o que
caracteriza a ciência como domínio cognitivo e o cientista como cientista operando na paixão
do explicar aquilo que deseja explicar?
É a aceitabilidade de um critério particular de validação das explicações (científicas).
As explicações científicas não se referem à verdade, mas configuram um domínio de verdade. A ciência
é um domínio cognitivo válido para todos aqueles que aceitam o critério de validação das explicações
cientíticas (p. 57).
Para Maturana, a ciência é, então, uma atividade humana, cotidiana. O que a define
como um domínio explicativo particular é o critério de validação de explicações que os cientistas
usam, e o que define o cientista como um tipo particular de pessoa sob a paixão do explicar é o uso
do critério de validação de explicações que constitui a ciência como um domínio explicativo (p. 134).
O critério de validação das explicações científicas
São quatro as condições que devem satisfazer as explicações de um fenômeno (reformulações
da experiência) para serem consideradas científicas, na perspectiva de Maturana (p. 56,
57, 134, 135, 138, 139, 140):
1. Ter o fenômeno a explicar, o qual é sempre apresentado como uma receita do que
um observador deve fazer para ter a experiência que vai tratar como fenômeno a
explicar. Fazer tal e tal coisa, ver isso e aquilo, medir assim e assim, controlar de tal
maneira,... Ou seja, a primeira condição é a apresentação da experiência (o fenômeno)
a ser explicada em termos daquilo que o observador-padrão deve fazer em seu
domínio de experiências para experienciá-la. Assim, é o que o observador tem como
experiência que constitui o que se quer explicar, não o fenômeno. Aqueles que não
podem satisfazer as condições que geram a experiência não têm lugar no espaço de
atividades do cientista.
2. Ter a hipótese explicativa, que é sempre a proposição de um mecanismo que, posto
a funcionar, gera o fenômeno a explicar como resultado deste funcionamento na
experiência do observador. Em outras palavras, a reformulação da experiência (o
fenômeno) a ser explicada dada sob a forma de um mecanismo gerativo que, se realizado
por um observador-padrão lhe permite ter em seu domínio de experiências a
experiência a ser explicada, tal como apresentada na primeira condição.
3. Satisfazer a dedução, a partir da operação do mecanismo gerativo proposto na
segunda condição, assim como de todas as coerências operacionais do âmbito de
experiências do observador-padrão a ele vinculado, de outras experiências que um
observador-padrão deveria ter através da aplicação daquelas coerências operacionais
e das operações que deve realizar em seu domínio de experiências para tê-las.
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4. A realização dessas experiências, ou seja, a experiência, por um observador padrão,
das experiências (fenômenos) deduzidos na terceira condição através da realização,
em seu domínio de experiências, das operações também deduzidas nessa condição.
É apenas quando essas quatro condições são conjuntamente satisfeitas que uma
explicação pode ser considerada científica. Isto é, quando isso acontece, o mecanismo gerativo
proposto na segunda condição passa a ser uma explicação científica.
Maturana chama à atenção que esse critério de validação das explicações científicas
não requer a suposição de uma realidade independente – em nenhuma das condições se faz
essa suposição. Ela pode ser feita, mas é supérflua para uma explicação ser científica.
Os cientistas, segundo ele, procuram ser impecáveis em satisfazer essas quatro condições
de uma maneira coerente, sem saltos de um domínio para outro, porque no momento em que isso
acontecer e a dedução não for feita a partir das coerências operacionais ela não serve. (p. 57)
Uma explicação é válida na comunidade de cientistas enquanto observadores-padrão
aceitam que o critério de validação das explicações científicas foi satisfeito. (p. 136).
Na vida cotidiana, o ser humano também explica, através de reformulações da experiência,
que a maneira pela qual nós validamos nossas ações na vida cotidiana, dentro de qualquer
domínio operacional, envolve as mesmas coerências operacionais envolvidas no critério de validação
das explicações científicas. (p. 139). A diferença entre nossa operação na vida cotidiana como
cientistas e como não-cientistas depende de nossas diferentes emoções, de nossos diferentes desejos de consistência
e impecabilidade em nossas ações e de nossos diferentes desejos de reflexão sobre o que fazemos
(ibid.). Como cientistas estamos sob a paixão do explicar, e toda dúvida, toda pergunta, é sempre
bem-vinda para nossa realização enquanto tal. Como não-cientistas, não somos cuidadosos, usamos
sucessivamente muitos critérios deferentes de validação de nossas explicações, mudamos freqüentemente
de domínios fenomênicos em nosso discurso. (p. 140)
O que torna científica uma explicação ou uma teoria é o fato de ela ser validada pelo
critério de validação das explicações científicas, não a quantificação ou a possibilidade de algumas
predições (p. 142), ou a falseabilidade e verificabilidade:
As noções de falseabilidade, verificabilidade ou confirmação aplicar-se-iam à validação do conhecimento
científico apenas se este fosse um domínio cognitivo que revelasse, direta ou indiretamente,
por denotação ou conotação, uma realidade transcendente independente do que o observador
faz, e se a segunda condição do critério de validação das explicações científicas fosse um modelo
dessa realidade transcendente, em vez de um mecanismo gerativo que faz surgir a experiência a ser
explicada tal como é apresentada na primeira condição. (p. 143)
Para Maturana, uma teoria é um sistema explicativo que correlaciona muitos fenômenos
(experiência) de outra forma aparentemente não correlacionados. É um sistema proposto
como um domínio de explicações coerentes, junto a alguns conceitos que definem a natureza
de sua conectividade interna e a extensão de sua aplicabilidade gerativa. (p. 163). Para ele,
o objetivo de uma teoria científica é explicar, e não resguardar ou proteger qualquer princípio
ou valor, ou obter qualquer resultado desejado. (p. 166). Devido ao seu modo de constituição, as
teorias científicas surgem intrinsecamente em um domínio aberto de reflexões sobre tudo, incluindo
seus fundamentos, e são, operacionalmente, livres de qualquer dogmatismo (p. 167). (Teorias filosóficas,
por outro lado, estariam comprometidas com a manutenção de princípios explicativos.
Elas surgem no processo de gerar um sistema logicamente consistente e diretamente subordinado
à conservação de algumas noções explicativas básicas, sob a forma de princípios ou valores;
ibid.) A prática científica é, em princípio, libertadora.
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Finalmente, há que registrar que para Maturana as noções de progresso, de responsabilidade
social e ética não se aplicam à ciência como domínio cognitivo. Tais noções aplicam-se
às ações humanas, não à ciência. A noção de progresso tem a ver com o que nós, seres humanos,
consideramos melhor ou desejamos que aconteça na vida humana. A noção de responsabilidade
social tem a ver com nossa consciência de querermos ou não as conseqüências de nossas ações.
E a noção de ética tem a ver com nosso interesse pelas conseqüências de nossas ações na vida
de outros seres humanos. (p. 149-150). O conhecimento científico pode ser usado para qualquer
propósito que possamos querer e aí entram, no fluir de nosso linguajar e emocionar, as
noções de progresso, responsabilidade e ética.
Conclusão
Nesta monografia tentei descrever idéias centrais da epistemologia de Maturana.
Para isso, tive que começar com a teoria da autopoiese, que é a explicação do ser vivo, pois o
observador-padrão é um sistema vivo estruturalmente determinado e, enquanto tal, não tem
como fazer, operacionalmente, uma distinção que se possa, de alguma forma, afirmar ser a distinção
de algo independente de seu fazer. Esse observador-padrão não pode distinguir, na experiência,
entre ilusão e percepção. Mas pode gerar explicações da experiência que são reformulações
da mesma. Toda explicação é uma reformulação da experiência aceita por outro, segundo
algum critério de validação. As explicações científicas são reformulações da experiência aceitas
pela comunidade científica com base em um critério claro de validação estabelecido por ela
mesma. Cotidianamente também explicamos, mas nossos critérios de validação não são rigorosos,
consensuados, únicos.
Maturana é, ou foi, cientista na área da Biologia; fez seu doutorado em Biologia em
Harvard e trabalhou no M.I.T., duas instituições mundialmente reconhecidas na pesquisa
científica. Mas sua epistemologia é diferente da de outros cientistas porque seu ponto de partida
é o observador-padrão enquanto ser vivo. Quer dizer, o ponto de partida é distinto e dele
decorre, inevitavelmente, uma epistemologia distinta. Se consegui descrevê-la, neste trabalho,
sem grandes distorções, ou omissões, não sei, mas, como diria Maturana, o fiz na emoção, na
paixão, de descrever.
Referências
MATURANA, H. Cognição, ciência e vida cotidiana. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2001. 200 p.
ROSAS, R. Y. & SEBASTIÁN, C. Piaget, Vigotski y Maturana: constructivismo a tres voces. Buenos
Aires: Aique, 2001.
Bibliografia adicional sugerida
MATURANA, H. R. La realidad ¿objetiva o construida?: I fundamentos biológicos de la realidad.
México: Anthoropos, 1995.
______. La realidad ¿objetiva o construida? II fundamentos biológicos del conocimiento. México:
Anthoropos, 1996.
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